sexta-feira, 8 de abril de 2011

A psicose e a notícia fácil

É impressionante como a mídia brasileira, de forma geral, age de forma prática esticando seu dedinho e apontando causas e motivações para crimes às pressas apenas com a finalidade de garantir a liderança de sua marca no IBOPE. Nessa ânsia por estar à frente da concorrência, jornais, revistas, rádios e emissoras de TV juntam meia dúzia de informações e pintam o quadro que lhes for mais conveniente ou que pareça mais atrativo à massa sem medir conseqüências. Não está sendo diferente no caso da chacina de Realengo ao se analisar os aspectos e motivações que culminaram nas mortes das crianças e no suicídio de Wellington.

Sou jogador de videogame e RPG. RPG (role-playing game - "jogo de interpretar um papel") é um jogo "de tabuleiro" em que pessoas de várias idades se reúnem para viver na fantasia personagens que em grupo ajudam a libertar princesas e vencer dragões, feiticeiros e monstros. Geralmente joga-se com um contador de história e com mais de dois participantes. O contador cria um cenário fictício e os jogadores têm de se imaginar interagindo com os elementos deste cenário. Cada personagem possui limitações e poderes especiais que os auxiliam ou atrapalham a alcançar o objetivo. Tanto o contador de história como os jogadores podem ter idades variando de 6 a 80 anos (sou testemunha de mais de um jogo em que crianças inventavam ambientes com muita riqueza de detalhes e de avós jogando e netos contando as histórias). Este tipo de jogo, admirado por educadores e pedagogos e jogado em todo o mundo, mas pouco conhecido pelo público em geral, já foi execrado por mais de uma vez pela imprensa brasileira por pura conveniência e falta de informações.

Em determinados crimes ocorridos recentemente no Brasil , jornais e emissoras de rádio e TV agiram de forma bastante prática ao associar crimes ao RPG. Como o jogo não é de conhecimento da população, foi fácil para a mídia criar uma aura negativa em torno de um entretenimento sadio e educativo. Foi dito que os livros (que são guias didáticos com pontuação de poderes e fraquezas para personagens como elfos, ogros, humanos, dragões, etc.) continham ensinamentos de magia negra e outras bobagens do tipo. E a população "comprou" às cegas a informação vomitada pela mídia.

O resultado destas práticas midiáticas são a desinformação e a perseguição ao RPG: jogadores passam a ser discriminados e vistos como potenciais criminosos pela população. Pais desinformados e instituições de ensino rígidas proíbem crianças e adolescentes de se divertir com os jogos. Perde a sociedade que deixa de ter acesso a uma ferramenta de estímulo a imaginação e auxílio escolar tão importante quanto o livro e perdem as crianças e adolescentes que ficam órfãos de um entretenimento que estimula o convívio social, a imaginação e que são extremamente divertidos.

A mesma relação causa/conseqüência já se aplicou ao videogame: crianças que brincam de jogos de tiro ou de luta tornam-se pessoas violentas no dia-a-dia e cometem crimes. Essa afirmação infundada e cômoda para a mídia faz efeito principalmente em pais com pouco estudo, em religiosos cristãos e naqueles que educam os filhos pelo medo (militares, pais rígidos, etc).

Mas qual a relação do RPG com o crime cometido pelo assassino Wellington? NENHUMA. Mas o que critico neste texto é o fato de que chegou a conhecimento do público uma prova concreta de um elemento motivador do crime que não foi mencionado como tal por mídia alguma: a carta deixada por Wellington.

Nessa carta é notória a presença de elementos e linguajar diretamente associados a religiões cristãs. Muitos destes cultos são repletos de "demonstrações" de fé (pessoas em "transe" e aos gritos de "Aleluia", "Glória a Deus") e rituais cênicos em que pessoas se dizem possuídas por demônios ou que doentes voltam a andar ou enxergar. Neste ambiente é difícil diferenciar um "adorador" de um indivíduo com problemas psicológicos. E algumas vezes, faz-se vista grossa a uma possível doença mental de um "irmão" para que se possa usar este indivíduo como cobaia da fé de determinada igreja que compete com as demais para angariar novos devotos a contribuir para a melhoria de vida de seus líderes. Com isto muitos psicóticos e esquizofrênicos deixam de receber atendimento médico e têm sua visão turva da realidade perigosamente e potencialmente estimulada.

Fica aqui minha crítica contra a atitude seletiva das emissoras sobre eventos violentos envolvendo indivíduos com distúrbios mentais: Por que NENHUMA EMISSORA associou o comportamento psicótico de Wellington aos elementos cristãos contidos em sua carta de despedida? Porque não se buscou EM MOMENTO ALGUM procurar informações quanto à religião que o mesmo praticava ou à igreja que ele frequentava? Por que em todas as vezes em que criminosos jogavam RPG a mídia preferiu culpar o jogo pela execução do crime e não problemas psico-sociais do assassino? Por que não agem de forma semelhante com este criminoso e o aspecto religioso presente em sua carta?

Se alguém souber responder, fique à vontade.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Metrô: lá se vai minha esperança no transporte público




Moro no Rio há mais de 20 anos e venho acompanhando in loco as mudanças no trânsito e na relação do povo com os meios de transporte.
O carioca vive em uma cidade linda em que, de qualquer ponto da cidade, se chega a uma praia em 30 minutos. Sem trânsito...
As autoridades cagam na cabeça do cidadão (e se limpam nos nossos narizes) quando o assunto é engenharia de trânsito, fiscalização de empresas de ônibus, trens, etc. De toda essa bagunça, o Metrô era - de longe - o transporte mais ecologicamente correto, rápido, confortável e seguro. Não é mais!

Me falta a informação relativa a despesas do Metrô com manutenção, compra e mão de obra pra manter um serviço de qualidade, mas vamos tentar fazer um calculozinho rápido. Só pra fins ilustrativos...

A uiquipídia fala em mais de 1 milhão de passageiros por dia. Digamos que eles só usem uma passagem por dia. multiplicando pelo valor da passagem: R$2,80 x 1.000.000 = R$2 milhões e 800 mil POR DIA!!!!! (só de ida, meus amiguinhos! Só de ida!!!)

Na minha humilde opinião, a receita de 1 dia de funcionamento do Metro paga a manutenção de um mês e ainda coloca 1 composição novinha pra rodar por mês! No mínimo!!!

Mas isso acontece? Não! A população se esmaga nos vagões porque tem compromissos e quer evitar engarrafamentos. A população se mata, se humilha, passa mal nas plataformas e composições e que medidas o Metrô adota pra aliviar a situação? NENHUMA.

Anteontem vi uma galera voltando da praia. Todos adultos entre homens e mulheres. Sujos de areia, falando alto, bebendo cerveja dentro do vagão, cuspindo, sentando no chão, etc. Mudei de vagão depois que uma das meninas botou o almoço pra fora num jato direto pro chão, entre gargalhadas dos amigos... Algum segurança inibiu o consumo de álcool ou a algazarra deles? Não. O irônico é já ter testemunhado os seguranças entrando nos vagões e brigando com alunos - adolescentes - do Pedro II porque estavam sentados no chão, no canto do vagão, sem perturbar ninguém, tirando dúvidas sobre alguma prova que haviam feito. Porque intimidam os fracos e educados e fazem vista grossa pra grupos maiores que incomodam TODOS os passageiros? Ou seja, a segurança e a tranquilidade que só se encontravam no Metrô, simplesmente acabaram!!!

Hoje, por exemplo, eu fui empurrado por um retardado de uns 25 anos, SEM CAMISA, com o corpo cheio de areia, e que entrou com mais 12, mulheres, crianças e adolescentes, caindo sobre as pessoas, provocando e discutindo com passageiros sem que ninguém os incomodasse... Nenhum segurança viu esses caras entrando na composição assim? As câmeras de vigilância não viram? O maquinista não viu??? QUAL É A DESCULPA???

Hoje, sábado de sol em período de férias escolares, até uma criança sabe que grande parte da população escolhe a praia como opção de lazer barato. Será que o Metrô não sabe dessas coisas e não se oraganiza pra essas datas? Deve ser por isso que não havia seguranças na plataforma das estações Siqueira Campos e Arco Verde...

NOTA: enquanto arruaceiros podem entrar e fazer a bagunça que quiserem no Metrô, eu, ciclista, cidadão respeitoso e respeitável, trabalhador, sou impedido de usar o transporte durante a semana com minha bicicleta dobrável porque, de acordo com os gorilas retransmissores de regulamentos, (sic) "tá dobrada, mas é bicicleta e bicicleta só no fim de semana ou feriado nacional". São dois pesos e duas medidas??? Se eu entrar com uma bicicleta decorativa de arame eles vão me embarreirar também??? Se o critério for o volume, canso de ver gente carregando malas BEM maiores que a minha bicicleta dobrada...

Metrô Rio - Parabéns por mais este desserviço à população do Rio de Janeiro. Até 2038 continue tirando dinheiro da população otária e submissa!!!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Lucrando com a desgraça alheia




O que uma celebridade global pode fazer para ajudar vítimas de uma tragédia imensurável? Lucrar em cima da situação??? Esta, definitivamente, NÃO É A RESPOSTA CERTA!!!

O bom samaritano das tardes globais de sábado, com seu tino para negócios e seu faro (literalmente) privilegiado para oportunidades, resolveu levar a expressão "capitalismo selvagem" ao pé da letra!

Ele tornou-se sócio de um site de compras coletivas. O site em questão vem fazendo sucesso coletivo no meio urbano...

Vieram as enchentes e toda a calamidade na região serrana do Rio. Toda a população do país e mesmo de outros países se comoveu com o drama. Mas eis que este jovem empreendedor, marido da loira viciada em Video Games vespertinos, assiste a toda a tragédia com cifrões lhe sangrando os olhos e chora vislumbrando a oportunidade publicitária do evento. E o que ele faz?! Usa a boa fé da população para, literalmente, vender seu peixe.

Ele usa o carisma de sua estrutura nasal avantajada em vários sites de relacionamento e divulga: "quer ajudar a galera que se fodeu em Teresópolis, compre vales-ajuda no meu site do peixinho e ajude a (mim) população desabrigada".

Só que, uma vez que você precisa se cadastrar no site de compras coletivas para ajudar os desabrigados com a compra dos "vale-doações", ele aumenta infinitamente a mala direta do site, angariando milhares de novos clientes para seu site! E ele ainda sai de bom menino na história: as pessoas que querem ajudar (mesmo às cegas) os afetados por esta tragédia se dão por satisfeitas por doar sem sair da frente de seus computadores. As "doações" em tese ajudam os desabrigados e, no final, toda a opinião pública reverencia o jovem empreendedor pela iniciativa e não vêem que a intenção verdadeira do rapaz não tem nada de solidária...

O que ele faz não pode ser enquadrado na legislação como crime. Ele não é novo no mundo dos negócios. Este primo do Bruce Banner usou de todo seu conhecimento de marketing e publicidade para lucrar e ficar bem na fita. Mas qualquer pessoa que reflita um pouco mais sobre a conta bancária deste jovem empreendedor perceberá que ele poderia ter auxiliado as vítimas da chuva na região serrana simplesmente abrindo uma conta bancária e solicitando contribuições pelas rádios e tvs, ou doando 10% de sua riqueza acumulada. Isso não o faria passar fome... Pelo menos não a mesma fome que muitos estão passando enquanto ele contabiliza o lucro de sua jogada de mestre.

É triste, mas é a realidade de muitas figuras públicas em nosso país. Por isso, NÃO ESTIMULE ESTE NEGÓCIO DESUMANO! NÃO COMPRE MAIS NESTE SITE DE COMPRAS COLETIVAS!!!

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Fabricante da Pulseira do Equilíbrio lança novo produto

Fabricante da "pulseira do equilíbrio" lança novo acessório: Consolo da Sorte.
Ele faz a leitura das pregas (quando existentes) cruzando com o diâmetro e profundidade do "receptáculo" e sugere números de acordo com a capacidade de armazenamento do usuário. De acordo com pesquisas, a eficácia do produto ainda não foi comprovada, mas maioria dos compradores adquire o produto e só lê a bula dias depois.

domingo, 26 de setembro de 2010

Maturidade política

Aos 34 anos de idade, já praticamente um veterano em eleições (levando-se em consideração que eu devia ter uns 13 anos na primeira eleição direta do Brasil), vim a descobrir um truque criado para dissuadir as pessoas de votarem em seus candidatos e apostarem suas fichas nos candidatos mais fortes: a Pesquisa de Opinião de Votos.

Alguém já reparou no poder que aqueles gráficos têm sobre a nossa opinião?! Aquelas serras coloridas caminhando em um sobe e desce nervoso são apresentadas a nós como traduções tão exatas das preferências por este ou aquele candidato que acabamos por acreditar que o destino de uma eleição está predeterminado por elas! Como é que nós, gente que trabalha e estuda o dia inteiro, e que só chega em casa na hora de sentar com a janta no colo de frente pro William e pra Fátima, como teríamos condições de discordar destas informações? Não temos tempo, não temos meios, não temos saco pra isso! Afinal de contas acreditamos que o IBOPE, o Datafolha, e qualquer outro instituto de pesquisas de opinião seja uma instituição íntegra e que siga métodos de pesquisa os mais neutros e imparciais possíveis. Mas a pergunta que ficou batendo lá no fundo da minha cabeça foi: Será que estas informações procedem ou estes dados são manipulados para influenciar o voto do cidadão que não entende, que não tem tempo, que não gosta de política a votar somente nos candidatos com mais chance de ganhar a eleição?

Se a gente morasse na Suíça seria outra história... Mas em se tratando de Brasil, terra onde 96% (percentual calculado por mim enquanto estava em choque assistindo o horário político) tem um rabo preso, uma caveirinha no armário, uma continha nas Bahamas, um desvio de dinheiro público, uma superfaturação, não acho muito difícil que uma instituição dessas se prostitua a uma emissora de televisão, a um candidato influente, a uma oferta mais interessante que a ética e a moral (que hoje em dia são como roupa suja. Manchou? Passa um sabão e ninguém lembra da sujeira!). Afinal de contas, pra que se preocupar com princípios? A vida é curta, a grana desses esquemas é alta... Num país assim, fica difícil acreditar nas instituições tão cegamente... Mas a gente acredita! A gente acredita!!!

A corrupção é uma coisa que está entranhada na sociedade brasileira. Em vez de lutarmos para alterar leis utópicas, tendenciosas, que prejudicam uns em detrimento de outros, preferimos acatar a toda e qualquer besteira instituída pelas câmaras, senado, etc. e partimos para o plano B: uns soltam um dinheiro pro guarda fazer vista grossa pra carteira vencida, outros dão calote em ônibus pra economizar e assim vamos levando a vida: brincando de abrir uma exceção para uma exceção e, quando notamos, estamos cobrando que os políticos sejam honestos. Os políticos não vêm de Marte! São gente como a gente! Gente que nasceu e cresceu dentro da mesma sociedade e teve que dançar a mesma música que a gente dança! A diferença é que uma vez que sejam eleitos, os desvios e esquemas aumentam. O umbigo cresce, a cobiça aumenta, o comprometimento com o povo fica em segundo plano (isto em raros casos em que o político já chegou a ter algum escrúpulo ou pensar no bem da população...).

Eu faço a minha parte. Sei que ainda erro em muitas coisas, mas eu tento. E acho que só o fato de tentar (e de me policiar) em ser um cidadão o mais íntegro e ético possível já trás benefícios para a sociedade como um todo. Seria muita ingenuidade minha pensar que minha filosofia de vida pudesse ser disseminada, como um vírus do bem, e erradicasse todas as falhas de caráter e de moral da sociedade e, por consequência, de nossos representantes. Sei que não é assim que funciona. Não somos máquinas. Somos regidos por desejos, sonhos, planos e por isso corremos o risco de fazer horrores em benefício próprio. Como ter certeza de que os candidatos a deputados, senadores, prefeitos, governadores e presidentes farão o que dizem? Como ter certeza de que eles irão melhorar nossa vida, ou acabar com ela? Lendo. Pesquisando suas vidas, suas trajetórias políticas, os partidos a que pertencem e pertenceram, os problemas em que estiveram envolvidos, as leis, medidas e obras criadas. Somente depois de colocar todos os prós e contras na balança poderemos respirar aliviados e falar: votei num futuro melhor pra mim e pra toda sociedade.

Então pra finalizar, eu suplico: não vote em candidato simpático! Não vote em candidato que defende só taxistas canhotos vascaínos, não acredite em políticos em corpo-a-corpo jurando transformar esgoto a céu aberto em piscina e, principalmente não confie em pesquisas de opinião de voto: vote no seu candidato e ignore as pesquisas! Ou continue assistindo sua novela, seu futebol e deixando os outros escolherem seu destino por você...

domingo, 3 de janeiro de 2010

Bicicleta X Metrô: O marketing da hipocrisia

Sou carioca e circulo pela cidade de bicicleta há mais de 15 anos. Não sou o ciclista mais aparamentado da cidade, mas minha bicicleta tem os piscas traseiro e dianteiro, buzina e luz de freio. Ando sempre pela direita da rua e vocifero o código de trânsito - que me garante o direito de circular no asfalto e ser protegido por veículos maiores - a ônibus e motoristas de passeio mal informados.
Como estou trabalhando num local que me toma mais de 1 hora de deslocamento via pedal, resolvi tentar o serviço oferecido pelo Metrô: transportar minha bike da zona norte à sul da cidade sem fazer pit stop em C.T.I. ao final do percurso.
O Metrô oferece o serviço aos sábados (a partir das 14h) e domingos e feriados durante todo o dia. Resolvi fazer o teste no sábado.
Como fui trabalhar cedo, tomei coragem e suei na magrela por 1h10m até o Leblon. Na volta contornei a orla até a estação Cantagalo.
O serviço oferecido é tão recente e desconhecido que ao entrar no metrô com a bicicleta me senti um pouco como um astronauta e cheguei a fazer um check up das vestimentas pra garantir que nenhum pedaço de "pele" estivesse visível. Tudo OK.
Chegando nas roletas encontrei uma adaptação para passar as bicicletas rente ao chão (e evitar distribuir bordoadas com a roda traseira em outros passageiros). Adaptação tosca, diga-se de passagem: uma das grades foi serrada de forma que meu pneu traseiro passou perfeitamente pela fresta. SÓ o pneu... A suspensão dianteira não passou nem por decreto e o auxiliar do metrô, percebendo meu problema, prontamente me deu de costas e foi conferir algo mais importante na sala de segurança. Como meu cansaço era maior que a paciência, coloquei a bicicleta no ombro e lá fomos nós pela roleta. Nesse momento o rapaz mostrou um interesse repentino pela minha pessoa e me passou um sermão amigável "por favor, na próxima vez passe a bicicleta pela grade". Ao que eu repliquei "a suspensão da minha roda dianteira não passa por ali". Ele: "era só chamar que eu abria a cancela". Seria prático, se o mesmo não tivesse ignorado minha chegada com a bike 1 minuto antes....
Chegando à plataforma, de novo a sensação de ser um astronauta. Mas dessa vez percebi olhares incomodados. Era como se eu fosse um catador de lixo esperando o metrô com meu carrinho à frente. Me dirigi pro final da plataforma, onde encontrei o adesivo no piso indicando o vagão de "carga". Veio o metrô e foi o metrô... Ele não parou no local indicado! Como a composição tinha menos carros, tive que dar uma corridinha leve pra alcançar meu vagão... e disputar lugar entre olhares crucificadores.
Encostei no fundo do carro com a bike como se fosse um adolescente dando uns amassos na namoradinha. O carro enchendo e barrigas alheias apertando o selim, costelas batendo no guidão e a sensação de ser o errado da estória só piorando.
A voz informa: "Estácio. Estação de transferência para linha 2". Depois de cutucar e pedir uns 5 "com licença" fui parido para a plataforma. Bike ao ombro, lá foi o mutante descendo a "escadaria da Penha" até a plataforma da linha 2. Ali eu já não era mais mutante, eu era um louco fugindo do hospício. Olhares incrédulos e risinhos contidos. Nenhuma indicação no piso sobre a posição do carro para ciclistas. Passei por uma montanha com uniforme do Metrô e walkie-talkie que ignorou solenemente a mim e a bicicleta . Fui até o final (ao menos eu achava que fosse...) da plataforma disputar lugar na multidão. Inseguro quanto ao lado em que o trem pararia, fui perguntar a um funcionário que papeava com seu camarada se aquele era o final da estação. Não era. O trem chega naquele momento e lá vou eu correndo "aos passos" e empurrando a magrela pelo outro lado da plataforma. O condutor deve ter tido pena de mim (ou achado graça) e parece ter me esperado entrar com a bicicleta no vagão surpreendentemente vazio. Encostei na porta direita e esperei minha estação chegar.
Ao chegar nas roletas de saída, nenhuma adaptação para sair com a bicicleta pela grade. Aliás, nenhum funcionário à vista para ao menos me guiar por mímica de dentro do aquário de observação...
Resumo da estória: o Metrô inova ao permitir que ciclistas se lancem à própria sorte pelos obstáculos de seus trens e estações e garante uma viagem com mal estar e total falta de assistência. Sobra propaganda e faltam medidas reais para garantir uma viagem tranquila a pessoas que queiram passear com suas magrelas pela cidade. Ainda bem que nossa cidade não foi escolhida para sediar nenhum evento importante nos próximos anos! Já pensou o caos que seria?

PS: mas a penitência não é tão grande. Por enquanto é só aos fins de semana e feriados....

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Vó Dorinha...

Espero que tenha sido só comigo, mas tenho pra mim que esse foi um dos Natais mais insignificantes que eu já passei. Talvez pela ausência de minha avó, dona Dora, que resolveu tirar o time de campo faltando 4 dias pro Natal ano passado... A senhora fez falta e vai fazer por muito tempo, dona Dorinha! Sinto falta da sua presença à minha volta. Sua voz gritando "Dedé! O almoço tá pronto!". Sinto falta de ouvir a senhora resmungando das dores (sempre!) como resposta a todos os meus "bom dia, vó!". Ah, os moços da Comlurb têm passado no horário certinho e eu quase não tenho mais esquecido de colocar o lixo pra fora nos dias ímpares. Sinto falta de ouvir a senhora enaltecer saudosamente sua infância, sua mocidade, suas músicas, cinemas, modismos, comportamentos... Sinto muita, muita, muita, muita falta mesmo de deitar no seu colo e ganhar aquele cafuné espontâneo. Sinto falta do seu sorriso sincero e ávido por novidades me esperando à porta (mesmo que eu tivesse apenas ido à praia...). Sinto falta.... a cada vez que digo "sinto falta", vó, eu engasgo um pouco e prendo o choro como um idiota! Talvez não seja tanto idiotice, quanto desejo de continuar a falar da senhora...
Aliás, a senhora tinha defeitos. E quem não tem né, vó? Sua teimosia, seu machismo, seu deboche... Ai que raiva dos seus deboches! rsrsrs... Sabia que a senhora foi quem me apresentou ao Krot? Nunca mais consegui resistir àquela mistura mágica de chocolate e amendoim... Foi nas férias, eu devia ter uns 12 anos. A família toda esmagada contras as paredes de uma Parati azul indo pra casa da Tia Alcione em Cabo Frio... E aquela história de que "na casa da avó o neto pode tudo"? Como a sua casa sempre foi a minha, sempre haveria conflitos disciplinares entre a senhora e minha mãe... Afinal de contas não é toda avó que leva o neto pra ver Robocop no cinema sabendo que o garoto "batalhou" o ano inteiro pra ficar de recuperação em matemática no verão.
Tenho que dizer que a senhora sempre foi um referencial de cultura e inteligência na minha infância. Foi ao seu lado que aprendi a ler e estudei até a quarta série. Imitando a senhora passei a me alimentar de livros, revistas e qualquer palavra que estivesse dando sopa pela frente! Mas foi a senhora também que influenciou minha tara por videogames. Quantas avós por aí acertariam em comprar o cartucho de Atari que o neto queria de Natal? E destas, quantas teriam dado pro netinho em recuperação? Hahahahaha... Vó.... Saudades pra cacete das suas mãos carinhosas.... dos seus óculos.... sua pele... Ainda ouço a senhora quando chego em casa: "Oi, filho... Olha: tem o arroz no fogão... eu fiz uma saladinha só com o tomate porque ninguém lembra de passar no mercado e comprar um pé de alface.. olha: ligou uma moça pra você. Foi ligação interrubana!... Eu vou deitar um pouquinho agora porque não tem nada que preste na televisão"
Deita, vó. Amanhã cedo eu entro devagarinho no seu quarto e vou me aninhar no seu colo!

PS: Teve um dia, quando eu tinha uns 10 anos, que eu dormi com a senhora. Acordei na sua cama, com o sol entrando pela janela e batendo no meu rosto. Naquele dia eu fui feliz. Agora eu vou chorar um pouco vó... Te amo, dona Dora!